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Quando o Noticiário É Demasiado

Em 2014, dezenas de milhares de minorias Yazidis fugiram para o topo do Monte Sinjar, no Iraque, para escapar da violenta perseguição religiosa pelas mãos do Estado Islâmico. Nas semanas e meses que se seguiram à escalada apressada dos refugiados, voluntários e as forças armadas iraquianas enviaram suprimentos de paraquedas e, em alguns casos, resgataram crianças da área.

Em uma foto, uma mãe iraquiana, com a testa franzida em pânico, segura seu filho pequeno nas mãos, na esperança de que um voluntário o levasse embora. Ela talvez nunca mais o visse, mas pelo menos ele estaria seguro.

A primeira vez que vi aquela foto, estava sentada em um escritório com ar-condicionado em Phoenix. Estava vestindo uma saia lápis, ouvindo o zumbido das conversas abafadas do local de trabalho. Eu estava alerta, havia comido e tomado café e estava um pouco entediada. Quando vi a foto, tive um ataque de pânico.

Lidando com o Noticiário

Não foi a primeira vez que aquilo aconteceu, e não foi a última. Ouvir histórias de tragédia é difícil para todo mundo. Para mim, às vezes significa que não consigo respirar ou me levantar ou falar sem engasgar com as lágrimas. Isto tem sido uma grande fonte de vergonha para mim há muito tempo. Como posso ficar incapacitada só de ver um horror que outra pessoa está realmente vivendo?

Por um tempo, achei que a única maneira de expiar este terrível pecado de privilégio era me forçar a olhar. Não pular a foto da criança síria com costelas de xilofone. Não mudar de canal trazendo a notícia de mais um tiroteio em massa. Olhar todas as imagens virais de câmeras corporais. Embora aquilo possa ter me mantido até certo ponto informada (pelo menos sobre aquilo que o canal estava disposto a relatar), esta abordagem se mostrou contraproducente. Embora ver os horrores me tivesse feito querer fazer parte da solução, não posso ajudar ninguém se estiver balançando abraçando as pernas dentro do armário.

Eu não estou sozinha. Graham Davey, professor de psicologia da Universidade de Sussex, disse à Time no ano passado que, para muitas pessoas, assistir notícias chocantes ou especialmente trágicas pode levar a sintomas de “estresse agudo” ou até TEPT(Transtorno de Estresse Pós Traumático).

Como seguidora de Jesus, tenho a obrigação de cuidar do meu próximo e não posso fazer isso se não souber quem ele é ou do que precisa. Tenho também a obrigação de não ficar apática frente às necessidades, que se assemelham a um oceano sem fundo. Ao mesmo tempo, não posso fazer parte de alguma solução se sofrer continuamente ataques de pânico por uma tentativa de “ficar consciente”. Nesta era de mídia intensa, isto cria uma tensão com a qual toda a igreja deve se debater. Quanto do noticiário devemos consumir? E como podemos consumir com responsabilidade, para que não nos prejudique — ou pior, nos dessensibilize?

1. Conheça Seus Limites

Para pessoas como eu, o consumo demasiado de notícias trágicas pode interferir com nossa capacidade de funcionar como pessoas saudáveis. Meu corpo me envia reações de “lutar ou fugir” quando vejo fotografias ou vídeos perturbadores. É tolice ignorar estas reações; não só me lesiona, mas também impede minha capacidade de ajudar alguém.

Agora, isto não significa que, se uma notícia me fizer chorar, devo simplesmente desviar o olhar. Há santidade no luto com os outros, e verdadeiras lamentações podem amolecer nossos corações. Cada um necessita discernir seus próprios limites.

No entanto, vale a pena notar que nossos cérebros e corações reagem de maneira diferente a fotos e vídeos do que a palavras. Pode haver sabedoria em evitar imagens gráficas enquanto ainda se lê ou se ouve as informações.

Ao mesmo tempo, se sabemos que temos talento para a negação ou para a compartimentação, talvez precisemos forçar a nós mesmos. Se o evitar as histórias ou fotos nos permite imaginar confortavelmente que todos estão vivendo uma vida relativamente livre de conflitos tal como a nossa, estamos mal calibrados. Necessitamos reorientar nossos hábitos de buscar saber o que está acontecendo em mundos diferentes dos nossos e nos permitir sermos afetados desconfortavelmente.

2. Faça O Que Puder

A instrução de Jesus de “dar a César o que é de César” tem uma implicação interessante para aqueles que vivem em uma democracia representativa: nosso “César” exige nossa participação (Mt 22.21). Necessitamos consumir notícias suficientes para podermos ser eleitores responsáveis. Isto está se tornando mais difícil, já que as notícias patrocinadas por anunciantes fingem passar por notícias reais. Mas não podemos desistir. Enterrar a cabeça na areia não é uma opção.

Embora não pudesse resgatar a mulher Yazidi do Monte Sinjar, talvez pudesse votar a favor de líderes com políticas externas que se esforçam para impedir que outra tragédia como aquela aconteça. Encontrar agências de notícias em que se pode confiar exige tempo e discernimento mas necessitamos tentar. (A WORLD Magazine é um ótimo ponto de partida para obter informações globais.) Votar não é a resposta total e não resolve tudo, mas é um direito significativo para os cristãos norte-americanos.

3. Priorize a Comunidade

Quando fico atenta ao meu corpo, é difícil percorrer o Twitter indiscriminadamente ou assistir a cada um dos vídeos virais compartilhados nos noticiários. Mas, no interesse de me manter informada, me apoiei bastante na minha comunidade. Meu marido é um ávido leitor de notícias e fala comigo todas as noites sobre as mais importantes do dia. Amigos e colegas fazem o mesmo.

Se estamos sofrendo de apatia, nossas comunidades também podem nos ajudar. Mantenham-se informados juntos. Conversem sobre as notícias. Solucionem problemas da comunidade local juntos. Aquilo que fazemos em comunidade tem muito mais durabilidade do que aquilo que tentamos fazer sozinhos.

Na contundente história de Jesus sobre o samaritano, parte da culpa dos sacerdotes era por estarem fisicamente perto do homem que necessitava de ajuda e ainda assim continuaram andando em frente. A vítima havia sido espancada, roubada e deixada para morrer. O primeiro sacerdote “descia por aquele mesmo caminho” (Lc 10.31). Mais tarde “um levita descia por aquele lugar”, mas passou de largo (v. 32).

É arrogância imaginar que podemos resolver todos os problemas. Além de orar pela segurança, conforto e resgate daquela mulher Yazidi, havia pouco que eu pudesse fazer por ela. Certamente não havia nada que eu pudesse fazer a curto prazo.

Mas as necessidades dela me lembraram de olhar para a minha comunidade local. Quem está sofrendo em meu bairro? Deus nos colocou em nossas famílias, igrejas e bairros específicos para um propósito. A carta de Paulo aos Gálatas nos dá mais instruções: “Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé.” (Gl 6.10).

Não podemos ajudar a todos, mas definitivamente necessitamos estar ajudando alguém. E necessitamos começar por nossas comunidades de fé.

Manchetes de Hoje

Hoje de manhã, acordei com as manchetes sobre o tempo. A grande história de hoje em minha parte do país foi sobre tempestades, trazendo muita chuva e vento. Pela graça de Deus, fiquei agradecida e não com medo, pelo aviso. Até consegui colocar o carro na garagem em cima da hora!

Espero que um dia seja capaz de ver as notícias mais difíceis sobre pessoas, com o mesmo nível de ponderação. Mas, por hoje, ficarei grata pela graça de Deus — graça para aqueles que sofrem, para aqueles que dão testemunho e por aqueles que às vezes necessitam desviar o olhar.

Traduzido por Felipe Barnabé

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