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Consciência Amorosa para com os Fracos: Quando a Carne é mais do que Alimento

I Coríntios 8 é uma daquelas passagens bíblicas que trabalham profundamente nossa humildade. O motivo para isso é que ela nos desafia a colocar nosso conhecimento e nossas liberdades em segundo plano pelo bem do corpo de Cristo. Antes de iniciarmos, convido o leitor a ler os treze versículos do referido capítulo. Feito isto, esclareceremos, primeiro, sobre o contexto em que Paulo precisou tratar dessa questão relacionada à consciência, sobre quem o apóstolo estava a se dirigir diretamente no texto e, a partir disso, veremos como o problema relatado na Igreja de Corinto nos ensina que determinados conflitos só poderão ser apaziguados pela prática de uma consciência amorosa para com os mais fracos.

O QUE ESTAVA ACONTECENDO NA IGREJA DE CORINTO EM RELAÇÃO A COMER OU NÃO COMER CARNE

Corinto era uma cidade portuária do primeiro século que exercia uma grande influência cultural na região, tanto por estar na rota dos negócios, por sediar os Jogos Ístmicos, e, não menos importante, por ser uma cidade extremamente religiosa, onde, em sua acrópoles (ou cidade alta), localizava-se o templo de Afrodite, a deusa grega do amor. Era ali que mil prostitutas sacerdotisas viviam e faziam seus rituais, e de onde desciam a cada noite para se oferecer aos viajantes. Animais sacrificados eram oferecidos nesses rituais, nos quais toda sorte de imoralidade era praticada, de tal sorte que era chocante até para padrões dos gentios, ao ponto que “corintianizar” naquela época era sinônimo de realizar atos imorais.

Os animais oferecidos eram, geralmente, divididos em três partes. Um terço era consumido no altar, outro era dado para o sacerdote, e o últimos pedaço era retido pelo ofertante. Se o sacerdote daquele templo não tivesse necessidade daquela carne para si mesmo, ele a vendia nos mercados. Era assim que essa carne acabava parando na mesa das pessoas da cidade. Portanto, era grande a probabilidade de que quando um cristão ia ao mercado, ou fazia uma visita a um amigo ou familiar, acabaria sendo exposto a essas carnes sacrificadas a ídolos. Alguns convertidos coríntios não se importavam com isso. Entretanto, havia os que tinham suas consciências incomodadas quando eram expostos a alimento derivado de animais sacrificados. Estes se sentiam ofendidos, até mesmo, por verem um irmão ou uma irmã na fé comendo esses restos de sacrifícios.

É muito importante deixar claro, desde já, que não estava se discutindo as práticas que a Bíblia considera pecaminosas (como as proibições expostas nos Dez Mandamentos, por exemplo), mas sim as situações lícitas, como comer carne, que poderiam gerar dúvidas devido ao contexto envolvido. Alimentar-se de carne não é considerado pecado, mas será que se alimentar de restos de sacrifício seria? Essa era a circunstância que estava gerando problemas de relacionamentos na igreja de Corinto.

A QUEM PAULO ESTÁ SE DIRIGINDO NA PASSAGEM

Os versículos 9 e 10 deixam claro que Paulo está tratando com aquelas pessoas cujas consciências são mais fortes. Eles são os causadores do problema, pois deveriam agir de acordo com a maturidade que avocam para si. E isso acaba se tornando em uma questão moral, pois afetar o próximo deveria tocar a consciência. Este é o aspecto central do capítulo: se ferir o seu irmão em Cristo não lhe incomoda, na verdade, há alguma coisa errada com você, e não com o outro.

O remédio para a indiferença é apenas um: a consciência amorosa. Uma consciência que age com amor não está preocupada somente com o que é certo ou errado acerca do que se está fazendo, mas sim acerca como o outro está sendo afetado. Uma consciência amorosa irá abrir mão de fazer algo lícito para evitar a queda de outra pessoa e a quebra da paz na igreja, “porque o reino de Deus não consiste em comer e beber, mas em justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Pois quem serve a Cristo dessa forma é agradável a Deus e aceito pelos homens” – Rm 14.17-18Ou seja, não é uma questão de comida ou bebida, mas de vidas. Tal falta de sensibilidade e cuidado pelo próximo pode até ser um sinal da falta de amor a Deus, visto que I João 4.20 nos diz que “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem viu, não pode amar a Deus, a quem não viu” .

A escolha entre desprezar a consciência do seu irmão ou amá-lo é a opção entre desprezar ou amar a Cristo. Pecar contra a consciência de um crente é pecar contra Jesus, pois demonstra desconsideração pelo corpo de Cristo. É por isso quediz Paulo no versículo 13, ao concluir a passagem de I Coríntios 8, “se a comida fizer meu irmão tropeçar, nunca mais comerei carne, para não lhe servir de tropeço”. Portanto, eram aqueles de consciência mais firme que estavam perturbando a paz da igreja, e foi a estes que o apóstolo direcionou a exortação.

O CONHECIMENTO E O AMOR

Pode parecer estranho Paulo abrir este capítulo dizendo que “quanto à carne sacrificada a ídolos, sabemos que todos temos conhecimento”. Se todos sabiam o que precisava ser conhecido acerca da questão, por que isso havia se tornado um problema na igreja? O que o autor da epístola está querendo dizer é que era de conhecimento comum aos cristãos de Corinto que o Senhor Deus é o único Deus, e que tudo faz parte de sua criação – inclusive os animais usados nos sacrifícios pagãos, conforme é esclarecido no versículo 4: “quanto ao comer da carne sacrificada aos ídolos, sabemos que o ídolo no mundo não é nada”.

Alguns tinham esta ciência criacional de forma segura em suas mentes, superando quaisquer conflitos internos, e não se sentiam em pecado ao comer a carne de sacrifícios, mas outros ainda tinham suas consciências afetadas, conforme podemos perceber no versículo 7: Entretanto, nem todos têm esse conhecimento. Há alguns que, acostumados até agora com o ídolo, quando comem da carne sacrificada ao ídolo se contaminam”. Não há aqui contradição com o versículo 1, porque o que Paulo está fazendo é diferenciar o conhecimento teórico do conhecimento prático. Havia crentes em Corinto cujas consciências ainda não haviam sido purificadas e aperfeiçoadas no que diz respeito às suas experiências passadas com os cultos gregos.

Destarte, aqueles que julgam os de consciência mais fraca pela aparente falta de conhecimento, ou de deficiência na sua aplicação, devem ser lembrados que “o conhecimento sem amor é apenas outra forma de ignorância”, conforme escreveu Charles Hodge em seu comentário sobre essa passagem. Se Jesus ensinou que o grande mandamento é amar a Deus e ao próximo como a si mesmo, a indiferença à consciência alheia apenas demonstra ignorância da Lei de Deus. Exercer um direito sem o tempero do amor expõe desprezo pelo irmão por quem Jesus morreu. Assim, fazem mais sentido as palavras do versículo 2: “Se alguém supõe conhecer alguma coisa, ainda não conhece até o ponto em que é necessário conhecer”.

No verso 1, Paulo já alerta que “o conhecimento dá ocasião à arrogância, mas o amor edifica”. A palavra no grego, phusioó, traduzida em algumas versões como “ensoberbece”, significa, literalmente, inflar. O apóstolo está chamando a atenção para o fato de que o conhecimento sozinho apenas nos torna cheios de nós mesmos. Isso é diametralmente oposto ao que o amor opera. O amor não é egoísta, não é centrado em si mesmo e aponta para fora de nós, para o bem das outras pessoas.

A Bíblia ensina que na igreja tudo é ligado pelo amor, como declara Cl 3.14: “Acima de tudo, está o amor, que é o vínculo da perfeição”. E, por isso, não é o conhecimento em si, mas sim o amor a matéria-prima da edificação do corpo de Cristo, conforme Ef 4.16 : “Nele o corpo inteiro, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a correta atuação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo no amor”.

SOBRE A CONSCIÊNCIA

Os autores Andrew Nasseli e J.D. Crowley, em seu livro “Consciência: O Que é, Como treiná-la, e Amando Aqueles Que Discordam” (tradução minha), trazem excelentes lições sobre o assunto. Eles dizem que a consciência trabalha a partir daquilo que acreditamos ser certo e errado: “É um presente de Deus para nos ajudar a fazer decisões e corrigir erros que podemos ter cometido, ou, então, a defender determinadas decisões. Ela é poderosa, ao ponto de que muitos ficam loucos ou, até mesmo, tiram suas vidas por conta de uma culpa secreta – um pecado que ninguém tinha conhecimento, exceto aquela voz interior que não se cala.” A consciência, explicam eles, “é um disjuntor de liga-desliga, e que não tem opção de meia-luz. Ela é branco ou preto, certo ou errado. Não tem escala de cinza. Ou ela culpa, ou desculpa, declara culpado ou inocente. Quando ela acha um abismo entre padrões teóricos morais e escolhas práticas, ela bate em nossa cabeça como um martelo”.

É bem conhecida a resposta de Martinho Lutero quando foi pressionado a negar os seus escritos na Assembleia de Worms, e tem muito a ensinar acerca da consciência:

… “A menos que eu seja convencido pelas Escrituras e pela razão pura e já que não aceito a autoridade do papa e dos concílios, pois eles se contradizem mutuamente, minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Eu não posso e não vou me retratar de nada, pois não é seguro nem certo ir contra a consciência. Deus me ajude. Amém”

No Novo Testamento a palavra consciência é mencionada 30 vezes. Paulo a usa 20 vezes em suas epístolas, tal como em I Tm 1:18: “conservando a fé e uma boa consciência; pois alguns, vindo a rejeitá-la, naufragaram na fé.”, e em Rm 14, quando o apóstolo fala sobre a consciência dos cristãos judeus acerca da prática da Lei Mosaica no tocante aos dias santos (sobretudo, o sábado) e aos alimentos considerados impuros.

No capítulo 10 de I Coríntios, Paulo ainda está tratando da mesma questão do capítulo 8, e através de uma situação hipotética, ele ilustra algo que, certamente, estava se tornando repetitivo para os cristãos de Corinto:

Comei de tudo quanto se vende no mercado, sem nada perguntar por causa da consciência. Pois do Senhor é a terra e a sua plenitude. Se, portanto, algum incrédulo vos convidar, e quiserdes ir, comei de tudo que vos for servido, sem nada perguntar por motivo de consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi oferecido em sacrifício, então não comais por causa daquele que vos advertiu e por motivo de consciência.

Não estou falando da tua consciência, mas da consciência do outro. Pois, por que seria julgada a minha liberdade pela consciência de outra pessoa? E, se participo com gratidão, por que eu seria culpado por algo pelo que dou graças? Portanto, seja comendo, seja bebendo, seja fazendo qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis motivo de tropeço nem para judeus, nem para gregos, nem à igreja de Deus, assim como em tudo eu também procuro agradar a todos. Pois não busco meu próprio bem, mas o de muitos, para que sejam salvos.

Nesses versos, o apóstolo está ensinando que a tensão entre liberdade e consciência pode ser evitada pelo famoso “don`t ask, dont tell” – não pergunte, não diga. Mas veja que ele destaca que nossa liberdade não deve ser julgada pela consciência do outro, pois o alimento que recebemos, nós comemos e bebemos com gratidão e para a glória de Deus. Ora, isso escancara ainda mais que não se trata de uma questão de exercer a liberdade, e sim de abrir mão dela em favor do próximo. Se alguém trouxe tal informação, isso, muito provavelmente, significa que essa pessoa se importa com aquilo. E aí existe algo mais valioso que nossa liberdade: a vida do irmão. Por isso, precisamos estar dispostos a colocar o bem dos outros acima dos nossos direitos. A palavra traduzida por liberdade em I Co 8.9 – “Mas, cuidado para que essa vossa liberdade não se torne em motivo de tropeço para os fracos” , é exousia, que é compreendida como “autoridade para agir”. Logo, o que está em jogo é o relacionamento do próximo com Deus, e não nosso direito de agir. O ponto é que, às vezes, deve-se optar em não exercer o que é de direito, dando prioridade aquilo que é de bem para a igreja e para os crentes. Isso está colocado de forma bem clara também em I Co 10:23-24: “Todas as coisas são permitidas, mas nem todas são proveitosas. Todas as coisas são permitidas, mas nem todas são edificantes. Ninguém busque seu próprio bem, e sim o dos outros”.

CONCLUSÃO

No fim das contas, o que o apóstolo Paulo está dizendo é que carne nada mais é do que alimento, mas para alguns, carne pode ser mais do que simplesmente um alimento. E isso precisa ser respeitado. Uma consciência amorosa não usa de seu conhecimento, liberdade, direito ou autoridade para agir conforme lhe é permitido, mas para agir pelo bem do irmão e da igreja de Deus, pois mesmo que certa prática não lhe fira pessoalmente, a sua consciência deveria ser tocada pela possibilidade de levar alguém a tropeçar, visto que “o que tem dúvidas é condenado se comer, pois o que ele faz não provém da fé; e tudo o que não provém da fé é pecado” – Rm 14.23. Estimular um irmão a agir contra a sua própria consciência é algo muito sério, pois isso o conduz a pecar contra si mesmo e contra Deus ao agir em desconformidade com sua fé.

Após escrever em I Co 10.33 que não buscava o seu próprio interesse, “mas o de muitos, para que sejam salvos”, Paulo encerra este assunto no primeiro versículo do capítulo 11, afirmando: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Era assim que o apóstolo agia, e é assim que ele nos encoraja a agir, tendo como referência o próprio Cristo, que deixou o seu trono de glória para o nosso bem, a fim de salvar e edificar a Sua igreja.

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