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Cientista político responde a 5 perguntas sobre a China

Especialista comenta o acordo entre a União Europeia e o Partido Comunista, a iniciativa ‘Clean Network’ e muito mais

China

Para Márcio Coimbra, Xi Jinping anunciou que veio para ficar | Foto: Divulgação/Internet

Os danos provocados na economia mundial pelo isolamento em razão do surgimento do vírus chinês expuseram os riscos das relações políticas e comerciais do Ocidente com o Partido Comunista da China (PCC). Lideranças políticas acreditaram nessa possibilidade, negligenciando o problema ético, comercial e geopolítico internacional por trás da “diplomacia”. A estupidez política e o interesse econômico puseram o mundo Ocidental na corda bamba.

Nunca a China foi tão falada, sobretudo agora que várias nações denunciam o PCC como o criador do surto de covid-19 para enfraquecer os valores liberais. Além disso, pairam sobre o regime chinês suspeitas de espionagem através das telecomunicações, roubo de propriedade intelectual por meio de hackers, entre outros acontecimentos. Por isso, Oeste fez cinco perguntas ao cientista político Márcio Coimbra, que discorreu acerca do assunto. Confira:

Na semana passada, o Partido Comunista da China (PCC) e a União Europeia (UE) firmaram um acordo bilateral considerado histórico. O que isso significa para o Ocidente?

Para o PCC é um grande acordo, uma vez que a China vai pôr em prática seu modelo de negócios, ou seja, entregar mercado consumidor em troca de entrar nos mecanismos econômicos estrangeiros. O objetivo de Pequim é tornar a Europa dependente de suas benesses, assim como já foi realizado em diversos países. Assim, seria possível contornar leis regulatórias da UE que proíbem subsídios às indústrias e o controle estatal de empresas. Este é o objetivo da China. A UE deveria olhar esses acordos com mais cautela. Josep Borrell, chefe da diplomacia europeia, lembrou recentemente que as relações atuais entre Bruxelas e Pequim nem sempre são baseadas em confiança, transparência e reciprocidade.

O que é o movimento Clean Network? Qual vantagem obteve o Brasil ao aderir à iniciativa?

O Itamaraty, chefiado pelo ministro Ernesto Araújo, assinou a entrada do Brasil na coalizão de 50 países que representa cerca de dois terços do PIB mundial, com mais de 170 empresas de telecomunicações e muitas das mais poderosas companhias de alta tecnologia do mundo. Uma rede que conta com 31 dos 37 países da OCDE; 27 dos 30 países da Otan; 26 dos 27 países da UE e 11 dos 12 países dos Três Mares. O Brasil garante um ambiente seguro, transparente e compatível com os valores democráticos e liberdades fundamentais. Algo que gerará inclusive mais segurança para as empresas que investirem no país. As trilhas da Clean Network abrem caminho em várias direções para uma rede confiável. O instrumento de Clean Path deixa o tráfego de rede 5G mais transparente, enquanto o Clean Carrier limpa a rede dos riscos e a Clean Store, a remoção de aplicativos não confiáveis.

O Ocidente deve temer a decisão do secretário-geral do PCC, Xi Jinping, de ampliar a influência dele sobre as Forças Armadas de seu país?

Xi Jinping anunciou que veio para ficar. Tradicionalmente os presidentes chineses permaneciam no poder limitados constitucionalmente por dois mandatos de cinco de anos, enquanto se preparava o sucessor e o antecessor ainda permanecia com poderes na balança política. Ao inverter uma lógica que funcionava há décadas, Xi está modificando a lógica de poder deixada por Deng Xiaoping e que aproximou a China do mundo. Além disso, Xi quer ressuscitar um título que foi aposentado após a morte de Mao Tsé-Tung (1949-1976): o de presidente do Comitê Central do Partido Comunista. Essa seria uma manobra para Xi Jinping, que já é secretário-geral do PCC e chefe das Forças Armadas do país, consolidar o seu domínio.

Hoje, sem limites de mandato, com a Constituição alterada, Xi investiu-se de um poder imperial. O segundo mandato dele como secretário-geral do PCC e chefe das Forças Armadas vai terminar oficialmente no fim de 2022, enquanto seu segundo mandato de cinco anos como presidente do país se encerra em 2023. Mas diante de seu novo modelo de exercício de poder, certamente seu tempo no comando do país será muito maior. Ao contrário de Jian Zemin ou Hu Jintao, presidentes que governaram de acordo com as leis, Xi Jiping está no desafio de tornar-se um líder maior do que Mao Tsé Tung, mas para isso está concentrando poder civil e especialmente militar para sua estratégia sair vencedora. A China sai mais fechada de todo o processo.

Por que o regime chinês fechou o cerco sobre o fundador do grupo Alibaba?

O regime fechado possui estas características. Ao criticar abertamente o governo, Jack Ma sabia que estava comprando uma briga grande com um Estado opressor e ditatorial. A China é o país que mais cria bilionários no mundo: cinco por semana. Além do país onde eles estão menos seguros. Em 2003, havia 115 bilionários na China. Em um período de oito anos 72 morreram: 15 assassinados, 17 suicídios, 7 por mortes acidentais e 19 por doença. Outros 14 foram executados. Um bilionário chinês morreu a cada 41 dias. Se em março deste ano Jack Má era o “embaixador da China” na tentativa de melhorar a imagem global do país diante do coronavírus, graças a suas doações de equipamentos e recursos para vacinas, cerca de sete meses depois, tornou-se um problema. O governo chinês ordenou uma redução nas operações de seu grupo, alegando se tratar de um grupo “pouco sólido”, e que representava problemas para o sistema financeiro local.

O que esperar das Relações Exteriores do governo Biden com a China? O que muda da gestão Trump para a administração democrata?

Apesar de o foco de política exterior seguir em Rússia e China neste novo governo que chega à Casa Branca, desta vez esta nuance muda um pouco. O time diplomático de Biden focalizará mais em temas relativos a Moscou do que Pequim, diferentemente de Trump. Se o foco na administração Trump foi conter o avanço da China, os instrumentos usados pelo governo Biden devem mudar. A maneira com que Biden tratará da questão chinesa será mais parecido com aquilo que vimos nos anos Obama. Washington, entretanto, olhará muito atenção para Putin e sua rede internacional de influência.


Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil. Diretor-Executivo do Interlegis no Senado Federal

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