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A compreensão do jovem Eliú

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A tentação de Jó teve início somente quando os três amigos começaram a falar sem o devido conhecimento, e somente Eliú apresentou um conhecimento superior “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes.” (1 Coríntios 15.33).


A compreensão do jovem Eliú

Conteúdo do artigo

“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão, Então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude. Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça. Olhará para os homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou. Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz. Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, Para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes”. (Jó 33. 23- 30)

 

Introdução

Para analisar a teologia de Eliú, primeiro se faz necessário considerar que somente Jó e os seus três amigos: Elifaz, Zofar e Bildade, foram repreendidos por Deus.

“DEPOIS disto o SENHOR respondeu a Jó de um redemoinho, dizendo: Quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38.1-2);

“Sucedeu que, acabando o SENHOR de falar a Jó aquelas palavras, o SENHOR disse a Elifaz, o temanita: A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.” (Jó 42.7).

Nesse sentido, ao analisar o posicionamento do jovem ‘teólogo’, o leitor tem que ter total atenção e considerar a validade da exposição de Eliú.

Na exposição de Eliú o leitor vai encontrar um protoevangelho, com princípios que norteiam o evangelho de Cristo.

Quem era Eliú

Eliú é um jovem que surgem no debate entre Jó e seus três amigos após todos eles terem emitido as suas considerações.

O jovem Eliú é apresentado como sendo filho de filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão.

“E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus.” (Jó 32.2).

É significativo o fato de o escritor do Livro de Jó constar somente a linhagem de Eliú, e os outros amigos terem revelado somente o nome e lugar de origem.

A genealogia de Eliú caracteriza o Livro de Jó com personagens históricos, longe do que pensa alguns teólogos, de que se trata de uma lenda ou parábola, e confere importância aos seus ensinamentos perante os demais.

Por Eliú ser buzita, é possível inferir que Eliú fosse descendente de Buz, filho de Naor, irmão de Abraão, mas não há evidencias internas ou externa ao Livro de Jó que demonstra isso.

Respeitando as tradições

“ENTÃO aqueles três homens cessaram de responder a Jó; porque era justo aos seus próprios olhos. E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus. Também a sua ira se acendeu contra os seus três amigos, porque, não achando que responder, todavia condenavam a Jó. Eliú, porém, esperou para falar a Jó, porquanto tinham mais idade do que ele. Vendo, pois, Eliú que já não havia resposta na boca daqueles três homens, a sua ira se acendeu.” (Jó 32.1-5).

A abordagem de Eliú nos ensina que devemos respeitar as tradições sociais estabelecidas, porém, jamais fazer calar a verdade quando o erro procura se instalar.

“Como fonte turvada, e manancial poluído, assim é o justo que cede diante do ímpio.” (Provérbios 25.26).

Os três amigos de Jó caíram no fascínio arquitetado por Satanás, de contemplarem a condição deplorável de Jó e fazerem juízo sem conhecimento.

Recapitulando: Como não podia derrubar Jó da sua fé e integridade, e nem o arrebatar das mãos de Deus (Romanos 8.35-39), tirar os bens, a família e a saúde de Jó só foi o desenvolvimento de um plano arquitetado por Satanás para reunir os três amigos diante de Jó. A tentação de Jó teve início quando os quatro amigos começaram a falar sem o devido conhecimento.

Alguém que emite opiniões e achismos sem compreender as coisas de Deus serve de tropeço e escândalo, e mesmo não estando sob possessão demoníaca, faz o trabalho sujo de Satanás.

“Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.” (Mateus 16.23).

Não é porque alguém é mestre ou doutor formado e condecorado em uma faculdade de teologia, que de fato compreende as coisas que são de Deus. Uma faculdade de teologia nada mais é que a exposição de inúmeros discursos de vários homens emitidos épocas distintas acerca de questões ditas bíblicas, porém, cabe aos crentes em Cristo divisar bem se tais mestres verdadeiramente compreenderam as coisas que são de Deus, ou se compreendem somente as coisas que são dos homens.

Ao analisar um discurso se faz necessário acuidade e conhecimento, pois mesmo alguém que defenda a existência de Deus, a soberania divina, a moral, os bons costumes, etc., assim como os amigos de Jó, pode estar a serviço de Satanás.

No final, a tradição pós um fim a discussão dos amigos, visto que, ao verificarem que Jó era justo aos seus próprios olhos, cessaram de responde-lo, abrindo espaço para o posicionamento de um jovem.

Eliú estava indignado ao ver Jó se justificado perante os seus amigos, deixando de atribuir a Deus plena justiça, bem como ao ver os três amigos sem elementos, acusarem e condenarem Jó de pecado, mas por causa da tradição, esperou para falar, visto que Jó era mais velho, e o silêncio dos três amigos.

Um jovem diante de idosos

“E respondeu Eliú, filho de Baraquel, o buzita, dizendo: Eu sou de menos idade, e vós sois idosos; receei-me e temi de vos declarar a minha opinião. Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria. Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido. Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito. Assim digo: Dai-me ouvidos, e também eu declararei a minha opinião. Eis que aguardei as vossas palavras, e dei ouvidos às vossas considerações, até que buscásseis razões. Atentando, pois, para vós, eis que nenhum de vós há que possa convencer a Jó, nem que responda às suas razões; Para que não digais: Achamos a sabedoria; Deus o derrubou, e não homem algum. Ora ele não dirigiu contra mim palavra alguma, nem lhe responderei com as vossas palavras. Estão pasmados, não respondem mais, faltam-lhes as palavras. Esperei, pois, mas não falam; porque já pararam, e não respondem mais. Também eu responderei pela minha parte; também eu declararei a minha opinião. Porque estou cheio de palavras; o meu espírito me constrange. Eis que dentro de mim sou como o mosto, sem respiradouro, prestes a arrebentar, como odres novos. Falarei, para que ache alívio; abrirei os meus lábios, e responderei. Que não faça eu acepção de pessoas, nem use de palavras lisonjeiras com o homem! Porque não sei usar de lisonjas; em breve me levaria o meu Criador.” (Jó 32.6-22).

Através do discurso de Eliú, fica evidente a diferença de idade entre os cinco (v. 6). Vencer a tradição era uma barreira para Eliú, a ponto de suprimir a vontade de expor o seu ponto de vista.

À época, como não havia formação acadêmica como em nossos dias, a sabedoria era tida como própria aos mais velhos, de modo que cabia aos jovens ouvirem os anciões e se calarem (v. 7).

Mas, Eliú compreendeu que não estava com os mais velhos a sabedoria, e assim como todos os homens possuíam um espírito, de igual modo o entendimento é próprio a todos os homens, pois a compreensão das coisas é proveniente de Deus (v. 8).

Em seguida, Eliú apresenta uma prova da sua argumentação:

“Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito.” (v. 9).

A argumentação inicial de Eliú teve por objetivo demonstrar aos mais velhos que ele respeitava as tradições, mas que também era necessário deixaram ele, na condição de mais jovem, falar, visto que, assim como os velhos que se presumiam sábios não eram pessoas eminentes, o pensamento correto também não estava com os velhos.

Eliú precisava de atenção, da mesma forma que aguardou a exposição dos mais velhos e sopesou as considerações de todos, e não se entediou até que chegassem a um entendimento plausível (v. 10-11).

Mas, de antemão, Eliú já previne os seus ouvintes para não fazer mau uso do seu discurso, vez que, por mais que acusassem, não conseguiram convencer Jó de pecado e nem que se curvasse as suas razões (v.12).

Os três amigos de Jó não poderiam lançar mão do argumento de Eliú para reafirmar os seus discursos. Eliú não buscava lisonjas, e nem queria que o seu discurso fosse considerado como instrumento de Deus para fazer calar Jó.

“Para que não digais: Achamos a sabedoria; Deus o derrubou, e não homem algum.” (v. 13).

Eliú demonstra que a sua exposição não tinha por objetivo replicar Jó, visto que em momento algum Jó havia lhe dirigido a palavra, e não era a proposta de Eliú dar eco as palavras dos amigos de Jó (v. 14).

Como os amigos de Jó estavam pasmos com a situação de Jó e por não terem conseguido uma confissão de pecado, nada mais disseram e ficaram sem argumentos. Eliú ainda aguardou por um tempo para ver se continuariam a falar, mas como pararam e não havia mais respostas, Eliú se prontificou a dar vasão a sua opinião.

É interessante que a figura que Eliú faz uso com relação ao vinho novo e odres novos traz à lembrança a parábola utilizada por Jesus no Novo Testamento quando questionado sobre o jejum:

“Nem se deita vinho novo em odres velhos; aliás rompem-se os odres, e entorna-se o vinho, e os odres estragam-se; mas deita-se vinho novo em odres novos, e assim ambos se conservam.” (Mateus 9.17).

Eliú compara o conhecimento que possuía com o vinho quando envasado. Da mesma forma que o vinho recém envasado exerce pressão sobre o odre novo, o seu espírito estava pressionado, de modo que aquele jovem era comparável a um o odre novo.

Embora Eliú sentisse necessidade de falar para ter alivio, ele primava por alguns princípios: não fazer acepção de pessoas e não ser lisonjeiro, pois estava certo que Deus haveria de puni-lo se fosse displicente com aqueles princípios (v. 22).

Eliú apresenta um protoevangelho

Aqui faço uso do termo proto, do grego prõtos, que significa primeiro ou anterior, como elemento de composição da palavra evangelho, para dar a entender que a exposição de Eliú contém um modelo que serviu de padrão ao evangelho de Cristo.

Eliú deixa de lado os amigos de Jó, e dirige a sua abordagem diretamente a Jó, concitando-o a considerar as suas palavras (Jó 33.1).

Como havia iniciado a sua abordagem, Eliú demonstra que estava prestes a fazer a sua exposição, de modo que as suas palavras já estavam na ponta da língua (v.2).

Como a boca expressa o que há no coração (Lucas 6.45), certo é que as razões de Eliú provavam a sua sinceridade, e que, por sua vez, falaria com sinceridade do que sabia (v. 3).

Eliú faz alusão a criação do homem, evidenciando que foi criado por Deus, e que existe por causa do sopro divino (v. 4), assim como Jó (v. 6). Se ambos vieram de Deus e do barro foram criados, Eliú esperava se respondido, visto que, por ser um igual, Jó não se sentiria pressionado de alguma maneira caso apresentasse as suas razões (vv. 4-7).

“Porque, na verdade, mais pesada seria, do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido engolidas. Porque as flechas do Todo-Poderoso estão em mim, cujo ardente veneno suga o meu espírito; os terrores de Deus se armam contra mim.” (Jó 6.3-4);

“Porque ele não é homem, como eu, a quem eu responda, vindo juntamente a juízo. Não há entre nós árbitro que ponha a mão sobre nós ambos. Tire ele a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror. Então falarei, e não o temerei; porque não sou assim em mim mesmo.” (Jó 9.32-35);

“Desvia a tua mão para longe, de mim, e não me espante o teu terror. Chama, pois, e eu responderei; ou eu falarei, e tu me responderás.” (Jó 13.21-22).

Para ser ouvido e respondido por Jó, Eliú demonstra que prestou atenção na exposição, e trouxe a baila o fato de serem homens, portanto, Jó não precisava recear de responde-lo, pois não havia como Eliú impor o terror ou puni-lo.

Eliú prestou atenção as palavras de Jó, tanto que apresenta o que compreendeu do que foi dito por Jó:

“Na verdade tu falaste aos meus ouvidos; e eu ouvi a voz das tuas palavras. Dizias: Limpo estou, sem transgressão; puro sou, e não tenho iniquidade. Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como seu inimigo. Põe no tronco os meus pés, e observa todas as minhas veredas.” (Jó 33.9-11);

Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado. Por que escondes o teu rosto, e me tens por teu inimigo? Porventura acossarás uma folha arrebatada pelo vento? E perseguirás o restolho seco? Por que escreves contra mim coisas amargas e me fazes herdar as culpas da minha mocidade? Também pões os meus pés no tronco, e observas todos os meus caminhos, e marcas os sinais dos meus pés.” (Jó 13.23-27).

Eliú não dá razão a Jó, e diz:

“Eis que nisso não tens razão” (v. 12)

Para Eliú a queixa de Jó era sem razão pelo fato de Deus ser maior que o homem, de modo que não era razoável contender com Deus tendo como pretexto que Deus não responde aos homens (v. 13).

Eliú assevera de eu fala aos homens de diversas forma e de diversas maneiras, mas que os homens não atentam para o que Deus fala (v. 14).

Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus.” (Salmos 62.11);

HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,” (Hebreus 1.1).

Como o homem é insensível a voz de Deus, às vezes, decerto nem percebe que Deus, quando em sonhos ou visões durante o sono lhes abre os ouvidos ou perturbá-lo com alertas, para que abandone os seus próprios intentos e fique livre da soberba, desviando assim a sua alma da cova ao ser morto à espada (v. 15-18).

Outras vezes, o homem nem se apercebe que seu desassossego e preocupações, a ponto de rejeitar o alimento, a ponto de perder peso, como se o seu corpo parece se achegar a sepultura, seria o caso de considerar que Deus está a instruir (v. 19-22).

É possível contestar estas formas de Deus falar, mas se houver um mensageiro, na posição de interprete, um escolhido dentre milhares, que declare ao homem o que Deus exige, é certo que Deus terá misericórdia e dirá ao homem: – ‘Está livre, não descerá a sepultura, pois já tenho resgate’! (v. 23-24). Por causa da misericórdia de Deus, o homem será restaurado como um nascido de novo (v. 25).

A essência da mensagem do evangelho é destacada: Deus se revelou à humanidade por intermédio do seu Filho, na qualidade de mensageiro e interprete da vontade de Deus, que anunciou aos homens o que Deus requer para serem aceitos.

Nos versos 23 a 25, Eliú descreve o que Deus, por sua graça e misericórdia, faz pelo homem, e em seguida, versos 26 a 28, ele descreve o que o homem faz ao ser alcançado pela graça divina.

A oração representa a confiança do homem expressa em palavras, de modo que Deus se agrada de quem confia e lhe é favorável (resplandecer o rosto, mostra a face), tornando o homem justo diante d’Ele (v.26; Hebreus 11.6; Isaías 8.17).

“O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;” (Números 6.25).

O homem justificado se volta para os demais, e passa a confessar que era pecador e que vivia em delitos e pecados (Esios 2.1-2), mas que Deus o livrou da perdição e passou a ter vida (v. 27-28).

Eliú destaca que tudo que foi relatado é realizado por Deus, pois é infinitamente misericordioso, livrando o homem da condenação à morte e concedendo nova vida.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Deuteronômio 5.10);

Ao dizer que Deus demonstra a sua misericórdia duas e três vezes, Eliú está destacando aquilo que os homens não atentam (Jó 33.14).

Após destacar aquilo que Deus faz, Eliú concita Jó a responde-lo, pois não deseja condená-lo, mas se não quisesse falar, que escutasse, pois haveria de ensinar sabedoria (v. 33).

Deus não perverte o direito

Eliú polidamente convida os de mais idade a ouvi-lo e considerar (Jó 34.2; Jó 12.11-12).

Ao estabelecer um comparativo entre a função do paladar e a função dos ouvidos, Eliú espera que os seus interlocutores tivessem sensibilidade para analisar e escolher o que é justo e bom, abandonando os seus posicionamentos e adotando os de Eliú (v. 3-4).

Elíu recrimina a atitude de Jó de se auto declarar justo segundo suas próprias razões, e por considerar que Deus subtraiu o que ele havia conquistado. Do ponto de vista dos homens era tido por mentiroso apesar da sua retidão, e embora sem ter transgredido, Deus o havia apenado a morte (v. 5-6).

Para Eliú, se auto justificar diante de Deus era como se saciar com escarnio e ser companheiro de pecadores, pois o posicionamento de Jó era o mesmo que dizer que de nada adianta ao homem servir a Deus (v. 8-9).

Aqui parece que Eliú tem o mesmo posicionamento dos amigos de Jó, porém, a abordagem é diferente, pois os três amigos de Jó saíram em defesa de Deus para terem pretexto para julgar Jó, enquanto Eliú fala abertamente qual o erro de Jó e somente descreve a natureza de Deus.

Deus é descrito como bondoso. Apesar de Todo-Poderoso Deus não é maldoso e nem perverso, e o motivo é: Deus dá a paga aos homens conforme as suas obras, e retribui cada homem segundo o seu caminho (v. 10-11).

Neste ponto, há que vê contradição, visto que Deus é apresentado como bondoso, e ao mesmo tempo, Aquele que ‘cria’ o mal. Se contradição alguma, pois Deus dá a paga a cada um segundo as suas obras e caminho. Maldoso e perverso seria tratar o ímpio com bondade, e o justo com maldade (v. 12; Isaías 45.7).

Deus jamais perverte o juízo e jamais procede impiamente:

“Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim perpetuamente; porém agora diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados.” (1 Samuel 2.30).

A abordagem de Eliú tem as mesmas premissas da fala de Deus por intermédio do profeta Isaías:

“Eu sou o SENHOR, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças; Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas. Destilai, ó céus, dessas alturas, e as nuvens chovam justiça; abra-se a terra, e produza a salvação, e ao mesmo tempo frutifique a justiça; eu, o SENHOR, as criei. Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos? Ai daquele que diz ao pai: Que é o que geras? E à mulher: Que dás tu à luz?  Assim diz o SENHOR, o Santo de Israel, aquele que o formou: Perguntai-me as coisas futuras; demandai-me acerca de meus filhos, e acerca da obra das minhas mãos.” Isaías 45.5-11).

Ao questionar Jó sobre quem tem o domínio e fez todas as coisas (v. 13), e por quem todos subsistem (v. 14-15), compreenderia que, em qualquer circunstância jamais o homem deveria questionar o Criador, pois seria como se um caco de barro tivesse como questionar o oleiro.

Elíu questiona se Jó tinha compreensão, pois quem é refratário à justiça jamais se estabeleceria, e se era razoável repudiar quem é igualmente justo e poderoso (v. 17). É concebível chamar um rei de vil, baixo, ralé, mentiroso, ou denominar um príncipe de mal, ruim.

Quando a Bíblia apresenta Deus como bom, o termo grego utilizado é αγαθος (agathos), que à época designava os nobres, os senhores, de modo que ousar chamar o rei de vil era inconcebível. Se homens por estarem em eminencia não se deve chamar vil ou ímpio, que se dirá de Deus que não faz acepção de pessoas, que não considera a posição dos príncipes e nem os bens dos ricos, pois tanto rico como pobre, nobre ou vil, etc., foram criados por Ele e todos são fugazes e morrem no seu devido tempo (v. 19);

Assim como os indivíduos, os povos vacilam e somem, bem como os seus nobres (v. 20), o que demonstra que Deus não tem ninguém em preferência.

Eliú lembra Jó da onipresença e da onisciência de Deus, que está presente e vê todas as coisas, portanto apto para julgar e fazer justiça. Ninguém escapa do conhecimento de Deus, pois não há trevas ou distância que encubra o homem dos olhos de Deus (v. 21 -22).

Deus jamais sobrecarrega o homem acima de suas capacidades para induzi-lo a cometer injustiça, somente para pretexto de convoca-lo a juízo e reprova-lo (v. 23).

Deus não precisa investigar para abater o ímpio e colocar outro para fazer as suas funções, vez que é de conhecimento d’Ele todas as ações de todos os homens e, no tempo certo, todos são destruídos. Deus fere os ímpios à vista de todos, pois a seu tempo se afastaram e não quiseram conhecer a Deus e, pela opressão, fizeram que os pobres clamassem e Ele respondesse os aflitos (v. 26-28).

Ao estabelecer a paz ninguém contesta a divindade, e se Ele oculta a face, não há como alguém encontrar o seu favor (v. 29).

“E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade.” (Deuteronômio 32.20).

Deus age sem distinção para com os povos e para com os homens, e sempre abate o soberbo para não dominar e livrar o povo da queda (v. 30).

Eliú lembra que jamais alguém sendo corrigido por Deus dirá: – Fui repreendido, não tornarei a pecar. Ou: – O que não compreendo, me ensina, e se fiz algum mal, não farei mais. Ou é Deus que estabelece a repreensão, ou é o homem que deve escolher como ser repreendido, a ponto de poder rejeitar a repreensão (v. 31-33).

Eliú espera não fazer uma escolha de qual repreensão escolher, antes que Jó decidisse e fizesse a escolha, evidenciando assim que Jó se expressou sem conhecimento e sem prudência.

Eliú invoca a Deus por pai, e peque que Jó seja provado por completo, tendo em vista a sua fala, que foi própria a homens maus, e que por multiplicar as suas palavras, acrescenta transgressões ao seu erro (Jó 38.2).

Os homens questionam a justiça e a bondade de Deus nas vicissitudes

Eliú aponta o erro de Jó, ao se defender da acusação dos seus amigos, quando pediu a Deus para ser pesado em balança fiel.

“(Pese-me em balanças fiéis, e saberá Deus a minha sinceridade),” (Jó 31.6).

Ao requisitar uma balança fiel, Jó disse nas entrelinhas que a sua justiça com base no seu comportamento era maior do que a de Deus, pois não estava sendo retribuído por Deus a altura de suas ações.

Quando disse: “Mas eu falarei ao Todo-Poderoso, e quero defender-me perante Deus (…) Eis que já tenho ordenado a minha causa, e sei que serei achado justo (…) Quantas culpas e pecados tenho eu? Notifica-me a minha transgressão e o meu pecado.” (Jó 13.3, 18 e 23), as palavras de Jó ofuscaram a justiça proveniente de Deus com sua integridade (v. 2).

Ou quando disse: “Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que ia perecendo vinha sobre mim, e eu fazia que rejubilasse o coração da viúva. Vestia-me da justiça, e ela me servia de vestimenta; como manto e diadema era a minha justiça. Eu me fazia de olhos para o cego, e de pés para o coxo. Dos necessitados era pai, e as causas de que eu não tinha conhecimento inquiria com diligência.” (Jó 29.12-16), Jó se apresenta envolto em um manto de justiça própria aos seus amigos.

Com suas palavras, Jó estava dando a entender que de nada lhe servia a justiça de Deus, e que não havia proveito na justiça, assim como não há proveito no pecado (v. 3).

“Sabei agora que Deus é o que me transtornou, e com a sua rede me cercou. Eis que clamo: Violência! Porém não sou ouvido. Grito: Socorro! Porém não há justiça. O meu caminho ele entrincheirou, e já não posso passar, e nas minhas veredas pôs trevas. Da minha honra me despojou; e tirou-me a coroa da minha cabeça.” (Jó 18.6-9).

Eliú pede a Jó que olhe para os céus e contemple as mais altas nuvens e considere:

“Se pecares, que efetuarás contra ele? Se as tuas transgressões se multiplicarem, que lhe farás? Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá ele da tua mão?” (v. 6-7).

O termo חַטָּאָה (chatta’ah) hebraico traduzido por pecado neste contexto tem em vista os erros e as falhas cotidianas. Embora o termo também seja utilizado para fazer referencia à condição do homem alienado de Deus decorrente da ofensa de Adão, pelo contexto verifica-se que o termo está sendo utilizado para falar dos desvios de conduta do dia a dia.

Essa é uma grande pergunta: se o homem comete erros, aponto de eles se multiplicarem e se tornarem inumeráveis, seria algo que afrontaria diretamente o Criador? Imaginemos Adolf Hitler, Gengis Khan, membros da Ku Klux Klan, etc., o que fizeram contra Deus?

De igual modo, se o homem é correto, ordeiro, caridoso, etc., o que deu o homem a Deus? O que Ele recebeu das mãos do homem que é correto em suas ações? A Madre Teresa de Caucutá deu algo a Deus, ou Deus foi beneficiado por alguma de suas ações?

Ao dizer: “Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse”, Jó não se deu conta que a impiedade dos homens faz mal somente ao seu semelhante, e o bem que faz, somente o seu semelhante tem proveito, o que não dá ao homem direito de dizer diante de Deus: – Sou justo!

Os homens questionam a justiça de Deus quando veem a opressão dos seus semelhantes, ou por causa da perseguição dos grandes, mas não consideram a existência de Deus por ter nascido ou quando está feliz à noite (v. 10). Se vê uma injustiça social, questionam a existência de Deus, mas não consideram o fato de terem conhecimento superior ao dos animais ou sabedoria superior à das aves.

Por que clamam e não são atendidos?  (v. 12) Se Deus diz que aquele que o invocar será salvo, porque não são atendidos? (Joel 2.32) Estes que clamam serão salvos porque se fizeram servos, e aqueles, são orgulhosos e maus.

Deus não atende e nem considera quem faz uso de palavras frívolas, como: – Me socorre em minha desventura! Por que não socorre os pobres deste mundo? Ora, o homem se queixa de seus próprios pecados (Lamentações 3.39), mas quem reconhece que Deus é salvador e faz a sua vontade, tornando-se servo, será atendido.

Eliú condena a fala de Jó, que dava a entender que, já que Deus não se ocupava dele, que poria a sua causa diante de Deus e que aguardaria uma resposta. O posicionamento de Jó em suas palavras era arrogante e sem conhecimento, como se Deus não castigasse ou ignorasse o pecado (v. 15).

Deus é excelso e justo

Eliú pede a Jó que aguardasse, pois haveria de atribuir justiça a Deus, pois trouxe conhecimento de longe, palavras verdadeiras e era pleno de conhecimento (Jó 36.1-4; Romanos 3.4).

Eliú evidencia a soberania divina como mui grande, mas destaca que jamais desprezaria alguém, por isso é grande em força e sabedoria. Em seguida, Eliú enumera algumas ações de Deus:

  1. não preserva a vida do ímpio;
  2. faz justiça aos aflitos;
  3. do justo não tira os seus olhos.

Com ‘não tirar os olhos’, Eliú destaca que Deus é favorável ao justo, de modo que os exalta, deixando-os em eminencia para sempre. A ideia aqui é demonstrar o favor de Deus, e não que o justo tem que ter riquezas ou que é amigo dos que governam.

Mas, se o justo estive preso em cadeias (algemas), com cordas de aflição, Deus o faz conhecer as suas faltas e orgulho, e os instrui para discipliná-los, ordenando que se convertam do erro. Se ouvirem, e se humilharem (servirem), viverão em paz e em seu favor, mas se forem rebeldes a sua voz, serão mortos a espada e morrerão se o conhecimento (v.8 -12).

Observe que em momento algum Eliú apresenta o sofrimento como correção divina, pois o sofrimento decorre do próprio pecado. A correção e a instrução decorrem única e exclusivamente da palavra de Deus, e bem faz quem atenta os seus ouvidos à palavra de Deus e as põe por obra. O pensamento que diz que Deus corrige ou instrui através do sofrimento é plantonista, ou seu subproduto, o espiritismo.

Os hipócritas somente entesouram ira sobre si, pois mesmo quando enlaçados e presos, não se socorrem de Deus (Romanos 2.5). O hipócrita cedo irá a morte, e perecerá na sua imundície (v. 13).

O aflito contrapõe a ideia do hipócrita ou soberbo. O aflito é condição que o homem do nosso tempo desconhece, pois sempre remete o termo a quem está sofrendo, ou passando por vicissitudes. O aflito é aquele que se submete, que mesmo sendo fustigado, se sujeita a Deus, assim como fez Agar ao se submeter a Sara.

“E disse Abrão a Sarai: Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos. E afligiu-a Sarai, e ela fugiu de sua face. E o anjo do SENHOR a achou junto a uma fonte de água no deserto, junto à fonte no caminho de Sur. E disse: Agar, serva de Sarai, donde vens, e para onde vais? E ela disse: Venho fugida da face de Sarai minha senhora. Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos.” (Gênesis 16.6-9).

O termo hebraico עָנָה traduzido por ‘humilhar’ no texto é o mesmo termo traduzido por ‘afligir’, de modo que o aflito é figura do humilde, ou seja, do que se humilha a si mesmo, sujeitando-se.

A leitura de que Deus salva o pobre porque é miserável ou que Deus instrui o homem através do sofrimento é equivocada. Deus livra o aflito da aflição e se revela ao oprimido por intermédio da sua palavra (Salmo 103.6; Mateus 11.28).

Deus também podia socorrer Jó tirando-o da angustia e colocando os seus pés em um lugar espaçoso, sem restrições, e com uma mesa farta de iguarias. Ou seja, Eliú declara a Jó que Deus poderia lhe ser favorável e conceder-lhe justiça, desde que se humilhasse diante de Deus (v. 16; Mateus 5.6).

Porém, Eliú observa que Jó estava se pautando em uma justiça própria, o que poderia leva-lo a ser julgado e apenado. Pela indignação que nutria, Jó poderia ser castigado sem que houvesse resgate (v. 17-18).

Eliú questiona se Deus teria em estima as riquezas que Jó tanto prezava, ou seja, o seu manto e diadema (Jó 29.14). Ora, Deus não teria em estima nem todos os esforços do seu vigor que lhe proporcionaram a tal riqueza (v. 19).

Jó não podia desejar ser tirado da terra dos viventes e percorrer o caminho de todos os povos. Deveria se abster da iniquidade, preferindo a injustiça ao sofrimento (v. 21).

Eliú lembra da excelência do poder de Deus e exímio mestre, portanto, inigualável. Ninguém lhe disse o que fazer ou o aconselhou, e nem pode dizer-lhe: fizeste mal (v. 22-23).

As obras de Deus são magnificas, e resta aos homens contemplá-las. A magnificência da criação dá um vislumbre da grandeza de Deus, porém, é impossível ao homem dimensionar a grandeza de Deus, assim como enumerar os seus dias (v. 26).

Deus faz as gotículas do vapor da água derramar chuva sobre a terra. As nuvens destilam e gotejam água em abundância, mas o homem nem mesmo pode compreender as extensões das nuvens e os trovões. Da mesma forma que Deus dá luminosidade, também encobre com escuridão as profundezas do mar.

Com chuva e sol, Deus governa os povos e lhes provê alimento em abundância, e nisso não há acepção de povos ou pessoas (v. 31).

Embora com a nuvem encubra a luz e não deixa o sol brilhar sobre a face da terra, ao mesmo tempo fornece elementos para que o homem compreenda que lá vem temporal, nem como aos animais do campo (v. 32 -33).

A grandeza da criação demonstra a sabedoria de Deus

Após descrever a grandeza da chuva, Eliú descreve a grandeza do som produzido pelos trovões, como se fosse um brado de indignação e um som produzido por sua boca, que ecoa pelos céus. Primeiro saem os relâmpagos e alcançam os confins da terra, e em seguida, há um brado que evoca a Sua majestade (Jó 37.1-4).

Outro fenômeno natural descrito é a neve, que cai sobre a terra a semelhança da garoa e da chuva, e assim, deixa evidente a sua obra a todos os homens. As feras do campo, diante da neve, têm que se esconder e se refugiar em cavernas. Tanto do norte quanto do sul saem os ventos frios, como se pelo sopro de Deus viesse a geada e congelasse as águas dos rios (v. 5-10).

Após abordar a chuva e a neve, Eliú descreve a umidade como o que dá volume as nuvens, e das nuvens saem os relâmpagos, que tomas vários sentidos, para realizar a vontade de Deus, as vezes para castigo ou para o benefício dos homens (v. 11-14).

Eliú concita Jó a considerar as maravilhas operadas por Deus, reconhecendo que desconhece como Deus faz todas as coisas, por mais rotineiras possível. Os relâmpagos, o equilíbrio das nuvens nos céus e o sol quando há calmaria. Ou seria o caso de Jó ter estendido a vastidão dos céus, tornando a abobada celeste firme como o metal mais duro conhecido à época (v. 18).

Acaso Jó poderia dar a conhecer o que dizer a Deus, pois nada é possível ao homem explicar por causa dos mistérios próprios à criação (v. 19). Alguém poderia anunciar a Deus as maravilhas que Eliú havia apresentado? É próprio ao homem requerer que se lhe dê em paga a ruina? (v. 20)

Da mesma forma que não é possível olhar para o resplendor do sol quando o céu está sem nuvens, é impossível contemplar a majestade e Deus, cujo esplendor vem das andas do norte. Nenhum homem ou criatura pode alcançar a sua grandeza, mas Deus jamais perverteria o juízo e a justiça (v. 23).

Os homens temem a Deus porque Ele é justo e reto, e não porque se impõe despoticamente. Igualmente, Deus não se deixa levar pelos soberbos, os sábios segundo o seu próprio conhecimento.

“Mas contigo está o perdão, para que sejas temido.” (Salmos 130.4).

Visão turva acerca da história de Jó

O leitor do Livro de Jó que se prende as questões do sofrimento e da restauração de Jó não compreenderá a lição que Deus deixou através do seu servo Jó. Embora não seja mais um dos acusadores de Jó, como o foram os três amigos, sempre estará envolto nas questões acerca do sofrimento do justo e ficará tentando encontrar um propósito no sofrimento.

De outra banda, o Livro de Jó não tem por objetivo destacar a soberania divina contrastando com a fragilidade do homem. Longe disso! Na verdade Deus escolheu Jó por ser um homem integro, justo e reto, para evidenciar à humanidade que, por mais justo e reto que um homem seja, estará aquém da justiça de Deus.

O jovem Eliú foi o único que fez um discurso coerente segundo a verdade revelada por Deus, tanto que ao final, não foi repreendido por Deus como foram os três amigos de Jó.

Eliú percebeu o erro gravíssimo que Jó estava incorrendo ao se justificar diante de seus amigos fiado em sua integridade, e que os amigos de Jó não tinham motivo para acusa-lo (Jó 32.2-3).

Os amigos de Jó só se calaram quando Jó lançou mão de uma justiça própria, com base na sua integridade. Quando perceberam que não tinham do que acusar Jó, pararam de acusa-lo, mas o estrago já estava feito e nem perceberam.

Como não julgaram segundo a reta justiça, mas segundo o que os seus olhos viram e ouvidos ouviram, os amigos de Jó se enganaram duas vezes. Primeiro julgaram segundo a vista, e ao verem o opróbrio de Jó, reputaram que ele tinha pecado. Depois, ao ouvirem Jó se justificando a si mesmo, se calaram, pois não encontraram uma conduta que pudessem condená-lo, e nem Jó admitiu que havia pecado.

Quando se depararam com Jó naquela situação deplorável, os amigos de Jó consideraram que os infortúnios de Jó era castigo divino. Deixaram se guiar pelos sentidos e conhecimento humano, e não analisaram a questão segundo o que Deus se revelou à humanidade. Equivocaram se quanto a situação de Jó, bem como com relação ao propósito de Deus para com o seu servo.

Os amigos de Jó desconheciam que somente Deus pode justificar o homem, e qual a base da justificação divina. Só é declarado justo por Deus aquele que é de novo gerado, pois essa é condição própria da nova criatura. As ações meritórias dos homens não possuem o poder de trazer a existência um novo homem.

Os amigos de Jó erraram ao acusa-lo de ter cometido algum deslize e por isso estava sendo castigado, e erraram mais ainda quando aceitaram passivamente Jó se auto justificar tendo por base suas boas ações e integridade. Os amigos de Jó julgavam segundo o que era aparente, e não segundo a reta justiça, que é a palavra de Deus.

“ENTÃO aqueles três homens cessaram de responder a Jó; porque era justo aos seus próprios olhos.” (Jó 32.1).

O posicionamento dos amigos de Jó, bem como a conduta de Jó, deixou Eliú indignado. Primeiro porque ele esperava que os mais velhos tivessem um conhecimento maior, mas ele acabou constatando que nas coisas concernentes a Deus a experiência pessoal ou a tradição não auxiliam em nada.

Tempo de vivencia, participar ativamente de uma comunidade, manter as tradições, etc., não torna o homem pleno do conhecimento de Deus. Isso não significa que, do ponto de vista humana, devemos abandonar as tradições, não respeitar os mais velhos e nem querer participar de uma comunidade.

Jó podia reclamar do infortúnio que passava, negar que estava em pecado e contradizer os seus amigos, mas jamais apresentar a sua integridade e conduta ilibada para se declarar justo.

É impossível ao homem ser justo diante de Deus tendo por base a sua conduta, pois a condição de justo é proveniente de Deus. Antes da queda Adão era justo, pois Deus o criou assim. Com a ofensa, ao desobedecer ao Criador, Adão passou à condição de ímpio. Além da condição de ímpio, da queda em diante, Adão passou a guiar o seu comportamento segundo o conhecimento adquirido do fruto: bem e mal, de modo que se o homem faz o bem não dá algo a Deus e, se faz o mal, não afeta a Deus, pois viver segundo o conhecimento adquirido não anula a condição adquirida com a ofensa: morte.

O conhecimento do bem e do mal era algo próprio ao fruto, porém, o que afetou a natureza do homem foi a ofensa por força da lei: certamente morrerás, e o que mante o homem preso ao pecado é a morte, que é impossível de ser revertida através do conhecimento pertinente ao fruto.

O bem e o mal são faces de uma mesma moeda, ou melhor caraterísticas de um mesmo fruto, assim como uma laranja que é cítrica e doce. Por causa do comportamento que possuía, pautado no bem, Jó argumentou que Deus lhe negou justiça e que retirou oque lhe era de direito, como se Deus lhe devesse ser favorável por causa da sua integridade (Jó 30.26).

O plano da salvação

É formidável a maneira como Eliú apresenta a Jó e aos seus amigos o plano da salvação de modo resumido e sutil.

Eliú destacou a necessidade de um mediador, que intercedesse pelos homens. Um mensageiro que compreendesse as exigências divina e fizesse conhecido aos homens a misericórdia de Deus.

Sem a figura desse mensageiro, que revelasse o que é justo, ou seja, aquilo que Deus considera justiça, não haveria como o homem ser aceito por Deus. Somente após Deus revelar graciosamente este conhecimento, torna-se possível ao homem alcançar a misericórdia divina, que lhe agracia com justiça.

“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão, então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate. Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude. Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça. Olhará para os homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou. Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz. Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, Para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes”. (Jó 33. 23- 30).

  • Se com ele, pois, houver um mensageiro – se houvesse um mensageiro (anjo) diz do papel exercido por Cristo, que veio ao mundo como mensageiro revelar Deus aos homens; na antiga aliança Deus enviou vários profetas para falar ao povo, mas na plenitude dos tempos enviou o seu Filho, nascido de mulher e sob a lei, para anunciar a vontade de Deus aos homens (Hebreus 1.1-2; Isaías 42.19);
  • um intérprete, um entre milhares” – para ser mediador entre duas partes, é imprescindível que essa pessoa compreenda as questões de ambos os lados. Cristo é esse mediador, pois sendo Deus, deixou a sua glória para ser participante da natureza humana, ficando sujeito as fraquezas do homem, mas sem pecado, e com isso, pode interceder pela humanidade. Por ser perfeito, pode adentrar a presença do Pai e exercer o papel de mediador, sumo sacerdote, tornando Deus conhecido dos homens (Hebreus 6.20); embora Deus tenha enviado aos filhos de Israel seus mensageiros, para essa missão em especial, teria que ser alguém escolhido. Cristo-homem não foi voluntarioso, antes foi escolhido (Hebreus 9.5-6); na encarnação, o Verbo eterno se voluntariou, mas na condição de homem não tomou tal honra, antes foi escolhido;
  • para declarar ao homem a sua retidão – a missão do mensageiro escolhido é anunciar aos homens o que é justo, ou seja, o que é conveniente fazer para ser aceito por Deus. Este mensageiro escolhido teria que repassar ao homem precisamente o que Deus requer como justiça, e por isso Jesus anunciava aos homens o que o Pai havia prescrito (João 12.49). O que Deus requer do homem é que pode justifica-lo, e não aquilo que o homem presume de si mesmo. Justo para Deus é confiar n’Ele, obedecendo a sua palavra. Exemplo: Jó estava com a sua confiança abalada a vista das vicissitudes que o alcançaram, e passou a fazer menção do que havia feito aos pobres e as viúvas;
  • Então terá misericórdia dele, e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate – o homem inteirado do que Deus requer, ao obedecer, Deus terá compaixão e o livrará para não ser deixado na morte. Em virtude do resgate, Deus pode declarar o homem livre da morte; o valor do resgate que o homem não podia oferecer por estar vendido ao pecado como escravo, Cristo na condição de cordeiro foi o sacrifício perfeito; o que era impossível aos homens, é possível a Deus! O homem estava vendido ao pecado, e Deus, que é o garantidor, adquiriu por um alto preço a liberdade e concedeu aos que creem; pertence somente a Deus a glória de resgatar a alma do homem;
  • “Sua carne se reverdecerá mais do que era na mocidade, e tornará aos dias da sua juventude.” – tornar aos dias da juventude só é possível através do novo nascimento; por causa da natureza herdada de Adão, o homem estava fadado a perdição, e por causa do novo nascimento em Cristo, o homem está em um novo e vivo caminho que o conduz a Deus;
  • Deveras orará a Deus, o qual se agradará dele, e verá a sua face com júbilo, e restituirá ao homem a sua justiça. – a oração evoca a confiança em Deus; por que orar? Porque o homem foi informado pelo mensageiro escolhido que Deus aceita aqueles que O invocam; ver a face de Deus é alcançar o seu favor, que resultará na alegria da salvação; é Deus que concede ao homem a condição de justo, condição própria a quem é e novo gerado; ser justo diante de Deus é condição decorrente de berço, nascimento, e não de caráter e moral, que são elementos humanos;
  • Olhará para os homens, e dirá: Pequei, e perverti o direito, o que de nada me aproveitou. Porém Deus livrou a minha alma de ir para a cova, e a minha vida verá a luz.” – Diante do o salvo alcança de Deus brota o testemunho do homem, que conterá uma confissão acerca da sua antiga condição sob o domínio do pecado, e a narrativa de tudo o que Deus proporcionou ao livrá-lo da cova;
  • Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, Para desviar a sua alma da perdição, e o iluminar com a luz dos viventes – justificar e salvar o homem é obra exclusiva de Deus; a redenção é ação de Deus que faz infinitamente muito mais do que pensamos, desviando assim, o homem da perdição.

O plano da salvação descrito por Eliú não era completo em revelação, mas perfeito nos elementos que o compõe (1 Pedro 1. 10-12).

Ao iniciar o seu discurso, Eliú disse que teria em seu peito algo novo, que comparou ao vinho novo. O que Eliú possuía guardado dentro de si era tão poderoso que estava a ponto de explodir, pressão comparável a que se expõe os odres novos que aguentam toda pressão quando da invasão do vinho novo.

É interessante ter sido introduzido por Eliú o vinho, que passou a ser símbolo da nova aliança. Além do mais, no discurso de Eliú não há alusão ao sacrifício de animais para remissão de pecado.

Atributos de Deus

Os amigos de Jó descreveram várias vezes a divindade, mas Eliú faz uma descrição completa dos atributos de Deus. Observe o capítulo trinta e quatro:

  • Deus é bondoso, longe dele o praticar a perversidade e a injustiça (v. 10);
  • Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras; não confundir retribuição com justificação. A retribuição será segundo aquilo que os homens fizeram ou deixaram de fazer, e nisso não há acepção de pessoas (v. 11);
  • Deus permite aos homens seguirem as suas próprias escolhas: livre arbítrio (v. 11);
  • O que está designado por Deus é imutável, por nele não há mudança ou falsidade (v. 12);
  • Deus dá liberalmente a todos os homens a sua graça e perdão, e continuamente cuida dos homens através da natureza (v. 14);
  • O domínio de Deus é estabelecido com justiça e poder (v 17);
  • Não faz acepção de pessoas (v.19);
  • É onisciente (v. 21);
  • É onipresente (v. 24);
  • É onipotente (v. 29).

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